A MORTE DO PAI DA MORTE

 

Paulo Melo Sousa(*)

 

 

Vítima de derrame cerebral, faleceu aos 95 anos de idade, no dia 09 de setembro passado, o cientista húngaro, naturalizado norte-americano, Edward Teller. Os jornais deram uma breve informação acerca do ocorrido, e limitaram-se a dar-lhe o crédito de “pai” da bomba de hidrogênio, associado ao fato de que foi grande defensor do armamentismo. Mas, vamos aos fatos: a bomba de hidrogênio foi testada, inicialmente, pelos norte-americanos, em 1952, no atol de Eniwetock, oceano Pacífico, sem muito êxito. No dia 8 de agosto de 1953, os cientistas soviéticos, alicerçados nas pesquisas de físicos como Kapitza, Kurchatov e Fenkel, explodiram com sucesso sua primeira bomba H, ultrapassando os Estados Unidos na corrida armamentista e gerando, com isso, uma verdadeira caça às bruxas, visando descobrir se tal situação não era devido à ação de traidores e comunistas. Tal pensamento foi disseminado entre a população por um medíocre senador do Wisconsin chamado Joe McCarthy, e a perseguição que impôs a esses “traidores” ficou conhecida como Mccarthysmo.

Contudo, bem antes disso tudo acontecer, cabe refletir sobre o processo que deu origem à pesquisa sobre armas atômicas. Na verdade, após o surgimento da Teoria da Relatividade (1905), de Albert Einstein, os físicos do mundo inteiro começaram a dedicar seu tempo ao aprofundamento do conhecimento do átomo. Quando Hitler começou a perseguir os judeus, centenas de homens da ciência, dentre os quais o próprio Einstein, fugiram da Alemanha nazista e foram se abrigar nos Estados Unidos. A partir do momento em que se soube que os físicos alemães poderiam construir uma bomba atômica, as articulações começaram a ser feitas. Com efeito, Otto Hahn e Lise Meitner, que ficaram na Alemanha, conseguiram realizar com sucesso a fusão do átomo de urânio. Daí para a bomba seria um passo.

No dia 02 de agosto de 1939, às 10 horas da manhã, os físicos Leo Szilard e Eugene Wigner (mais tarde Nobel de Física), fizeram uma visita a Albert Einstein, e o convenceram, também em nome de Enrico Fermi (criador da pilha atômica e, mais tarde, Nobel de Física), Robert Oppenheimer (físico norte-americano), Edward Teller e Niels Bohr, a escrever  uma carta alertando o então presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, acerca do perigo alemão. A carta foi decisiva. O governo daquele país deu início ao projeto Manhattan, comandado por Oppenheimer, que deu aos ianques a primazia da bomba atômica.

Esse projeto reuniu milhares de cientistas e técnicos (6.000, ao todo) em torno de Los Alamos, um sítio que deu origem, mais tarde, à cidade de mesmo nome. Todas essas pessoas trabalharam nesse lugar, chamado (a princípio,secretamente) pelos militares de Centro Y. Nesse local, reuniu-se um seleto grupo, na verdade quase todos os cérebros mais privilegiados do mundo científico de então, dentre os quais, além do próprio Robert Oppenheimer, Enrico Fermi, Emilio Segré, Klaus Fuchs, Bruno Rossi, James Chadwick, Rudoff Peierls, Edward Teller, Eugen Wigner, Niels Bohr, John Newman, Otto Frisch, Leo Szilard e George Weil. Esses homens viveram em Los Alamos de 30 de novembro de 1942 a 16 ded julho de 1945, quando a primeira bomba atômica foi deflagrada no deserto de Alamogordo, E.U.A. Nunca, em época anterior ou futura, foi reunido um time científico tão genial.

A seqüência da segunda guerra mundial, a partir daí, adquiriu outra feição. Com a repentina morte do presidente Roosevelt, a 12 de abril de 1945, assumiu o comando do país o Vice-Presidente Harry Truman, e ele não vacilou. Mandou jogar duas bombas atômicas sobre o Japão, a 06 e 09 de agosto de 1945. O resultado, catastrófico, foi o massacre imediato de 200.000 almas. Os jornais estamparam fotos de Einstein, Fermi e Oppenheimer como os pais da criança. Contudo, a maioria dos cientistas era contra o lançamento do artefato, que deveria ser apenas instrumento de dissuasão.

A partir desse momento, a maioria desses físicos deu início a uma ferrenha luta pacifista. Nem todos, porém, se sentiram chocados com a tragédia. Edward Teller era um deles. Em 1946, propôs a fabricação da bomba H. Oppenheimer se opôs e tornaram-se inimigos. Em 1949, Teller insistiu na fabricação da bomba total, e recebeu novo parecer contrário. Em 1950, Truman decidiu-se, finalmente, pela fabricação da bomba. Após o fracasso parcial de 1952, e o sucesso russo em 1953, Teller conseguiu explodir sua primeira bomba H no dia 1º de março de 1954, no atol de Bikini. Essa arma ficou conhecida como a bomba da morte e Teller considerado seu legítimo seu pai ( na verdade, padrasto, já que os russos chegaram primeiramente a ela). No dia 12 de abril desse mesmo ano, começou um duro inquérito contra Oppenheimer, acusado de traição por conta da praga do McCarthysmo, anteriormente citado. O próprio Teller depôs  contra o ex-colega, mas o cientista norte-americano, que tornou-se pacifista  e contrário à bomba, em virtude do drama de consciência sofrido por ocasião do holocausto japonês, foi absolvido.

Teller continuou suas pesquisas. Rejeitado por quase todos os colegas de profissão, foi lançado num grande ostracismo científico. Porém, não abdicou de suas idéias. Foi grande defensor do projeto “Guerra nas Estrelas” e recebeu em julho deste ano a “Medalha Presidencial da Liberdade”, a condecoração mais elevada concedida nos EUA, o que demonstra claramente o pensamento do governo Bush. A bomba de hidrogênio é considerada a bomba total. Mesmo reconhecendo mais tarde que não se deveria lançar os artefatos atômicos contra o Japão, Teller se tornou o pai da morte em virtude de sua trágica invenção. É interessante que se reflita sobre isto no momento em que tanto se fala sobre o atentado de 11 de setembro, curiosamente em Manhattan (mesmo nome do projeto que originou a bomba atômica). Na verdade, café pequeno diante da carnificina que os americanos praticaram contra os japoneses na 2ª Guerra Mundial.  

 

(*) Paulo Melo Sousa é poeta, jornalista, escritor, professor, ambientalista, pesquisador e presidente da SAMA (Sociedade de Astronomia do Maranhão).