BLECAUTE NA LUA

 

PAULO MELO SOUSA*

 

Texto publicado no jornal O Imparcial, de 26/10/2004

 e no Diário da Manhã, de 27/10/2004.

 

Nesta quarta-feira, 27.10.2004, acontecerá um eclipse total da Lua, visível em São Luís. O fenômeno será observado pela Sociedade de Astronomia do Maranhão – SAMA, na Praça Maria Aragão, numa programação em parceria com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, a partir das 19 horas. O público presente será contemplado com palestra sobre eclipses, ministrada por Paulo Melo Sousa, e visualização do fenômeno por telescópios. Haverá programação cultural paralela, com performances poéticas, tendo como tema a Lua, shows musicais (com Mawell Barros, Marcos Araújo, Jorge Henrique e Sérgio Brenha), apresentação do Coral da Universidade Federal do Maranhão – UFMA, e banda de música. A área terá segurança, presença de vendedores ambulantes, banheiros químicos e cadeiras para o público presente. Haverá retardamento do horário de recolhimento dos ônibus para facilitar o transporte das pessoas.

 

 

Sob a designação de eclipse, os astrônomos explicam o desaparecimento de um astro devido à interposição de outro. Temos, no trinômio Sol, Terra, Lua, os eclipses lunares e solares. Quando a Lua está em um ponto do espaço oposto ao Sol, em relação à Terra, ela está em oposição ou, simplesmente, no período da Lua cheia, e aí poderemos ter um eclipse lunar. Por outro lado, quando a Lua está em conjunção com o Sol, ou seja, na Lua nova, é possível que tenhamos os eclipses solares. O fenômeno acontece por conta da obstrução da luz do Sol, seja pela Terra ou pela Lua, e só se verifica quando eles se encontram alinhados numa reta. Não é toda vez que acontece essa coincidência, pois nem sempre os três astros se encontram nessa situação. Na verdade, a Lua gira num plano que forma um ângulo de cinco graus com relação ao plano da órbita do nosso planeta. Dessa forma, um alinhamento direto não é freqüente. Quando a órbita da Lua atravessa o mesmo plano da órbita terrestre (em pontos chamados nodos), então teremos um eclipse.

 

 A quantidade máxima de eclipses que pode acontecer durante um ano é de apenas sete. Como a região do nosso planeta em que acontece o fenômeno pode variar de um eclipse para outro, não será toda vez que teremos a sorte de ver tais espetáculos. Os eclipses lunares são mais comuns de serem contemplados que os solares, pois todas as regiões do planeta que estiverem observando a Lua cheia serão privilegiadas. Por sua vez, no eclipse do Sol, total, apenas uma faixa de 150 quilômetros quadrados é varrida pela sombra da Lua. Nos dias de hoje, a teoria dos eclipses é bastante conhecida, mas a mesma não constitui novidade. Na verdade, os astrônomos da antigüidade já dominavam tal conhecimento.

 

 Nossos ancestrais vislumbravam o céu com curiosidade e temor. Com o passar dos milênios, o nômade caçador foi lentamente aprendendo a lidar com a terra, e finalmente se tornou agricultor. Este momento ficou conhecido como “revolução neolítica”, e aconteceu por volta de dez mil anos atrás. Cada vez mais se tornou necessário obter conhecimentos acerca da época certa para o plantio. Os sacerdotes elaboraram calendários para as tarefas agrícolas e religiosas. Com o sedentarismo, surgiu o artesanato, e as trocas se tornaram necessárias. Os primeiros observadores sistemáticos do céu foram os marinheiros, os pastores e os agricultores. A Astronomia, como ciência, surgiu na Babilônia e em Nínive, na região hoje ocupada pelo Iraque. Eram os sacerdotes de tais Cidades-estados que observavam os astros durante noites a fio a partir de torres chamadas Ziggurats. O resultado dessas observações era registrado em plaquetas de argila, algumas datadas de 3.000 anos a.C, e elas revelaram que os sacerdotes babilônicos eram capazes de prever os eclipses.

 

Havia uma grande neurose coletiva com relação a esses fenômenos. Os povos antigos acreditavam que os eclipses, juntamente com o surgimento dos cometas, eram portadores de malefícios. A preocupação era tão grande que, com a proximidade de um eclipse, o rei se tornava súdito e o seu lugar era ocupado por um pobre coitado, que “reinava” durante esse breve período. Ao fim do fenômeno, o rei retomava seu posto, “salvando-se” do chamado “mal do eclipse”. Os babilônios afirmavam que o jovem deus-Lua, nessas ocasiões, era cercado pelos sete demônios desencadeadores do mal. Marduk, o pai dos deuses do panteão babilônico, intercedia e libertava-o com a ajuda do povo, que entoava cantos fúnebres, e com as orações dos sacerdotes, que realizavam o exorcismo o fenômeno.

 

Em termos científicos, a grande contribuição da Astronomia babilônica foi a descoberta de um período chamado saros, após vários séculos de observação sistemática do céu. O saros é um período de 18 anos e 11 dias, aproximadamente 223 meses lunares. Depois da seqüência, o Sol e a Lua retornam quase exatamente às suas posições iniciais em relação aos nodos. Dessa forma, o ciclo dos eclipses volta a repetir-se com grande aproximação. Cada saros possui 70 eclipses, mantendo uma média de 4 por ano, sendo 41 solares e 29 lunares. A importância dos eclipses lunares está relacionada às primeiras deduções de ordem científica, pois nos deram a primeira prova da redondeza da Terra. Os cientistas utilizam essas oportunidades para realizar estudos da alta atmosfera terrestre e para medições acerca da aceleração secular da Lua. Os resultados são utilizados para estabelecer, com grande precisão, os registros das efemérides.

 

O eclipse penumbral ocorre quando a Lua atravessa apenas o cone de penumbra da Terra. No parcial, a Lua penetra em um trecho do mesmo, ao passo que no total ela mergulha completamente no cone de sombra. Nesta situação, é possível presenciar as duas possibilidades anteriores. A entrada na penumbra é bastante sutil e de difícil observação. O início da parcialidade ocorre quando se verifica uma “mordida” na Lua, a partir do contato do disco do satélite com o cone de sombra. A região escura vai aumentando, até cobrir toda a superfície. A Lua não desaparece por completo, pois a luz do Sol, desviada pela alta atmosfera terrestre, penetra no cone de sombra e deixa a superfície lunar com uma coloração geralmente avermelhada, podendo existir variações significativas.

 

O primeiro cientista a estudar tal fato foi o astrônomo francês André Danjon (1890-1967), que elaborou uma escala de luminosidade capaz de atribuir a cada eclipse um parâmetro de brilho a partir da fase de totalidade. A escala de Danjon vai de 0 a 4, e está constituída da seguinte forma: 0 – muito escuro, no qual a Lua é quase invisível; 1 – escuro, cinza ou castanho, em que as crateras e montanhas lunares se tornam indefinidas ao telescópio;  2 – vermelho-escuro, no qual se verifica uma mancha central bastante escura, circundada por uma área externa clara; 3 – vermelho-tijolo, cuja sombra é, com freqüência, acompanhada por uma área cinza ou amarela bem clara; 4 – vermelho-cobre ou alaranjado, bem claro, apresentando uma área externa bem luminosa e azulada. Danjon chegou a essas determinações após estudar, detalhadamente, 150 eclipses registrados desde o século XVI, e relacionou a variação de luminosidade ao ciclo de atividade solar, de 11 anos. Segundo ele, nos dois anos que se seguem ao mínimo dessa atividade, o eclipse é mais escuro. À medida que a atividade aumenta, a luminosidade e a cor avermelhada se acentuam até que o próximo período de mínima atividade do Sol volte a ocorrer, o que irá reproduzir a seqüência. Apesar da descoberta, Danjon atribuiu tais variações às flutuações da atmosfera da Terra. Há pouco tempo, o astrônomo F. Link demonstrou que as variações dependem das radiações corpusculares do sol e que estariam relacionadas ao seu ciclo.

 

 

* Paulo Melo Sousa é jornalista, escritor e presidente da SAMA

 

 

 

 

DADOS DO ECLIPSE

 

DIA                HORA                       FENÔMENO

 

27.10            18:05                          Nascer da Lua

 

27.10            21:06                         Entrada na penumbra

 

27.10           22:14                         Entrada na sombra (início da fase parcial)

 

27.10          23:23                         Início da totalidade

 

28.10         00:04                         Meio do eclipse

 

28.10         00:45                         Fim da totalidade

 

28.10         01:54                         Saída da sombra (fim da fase parcial)

 

28.10        03:03                         Saída da fase de penumbra