PAULO MELO SOUSA*
Texto publicado no
jornal O Imparcial, de 26/10/2004
e no Diário da Manhã, de 27/10/2004.
Nesta
quarta-feira, 27.10.2004, acontecerá um eclipse total da Lua, visível
Sob a
designação de eclipse, os astrônomos explicam o desaparecimento de um astro
devido à interposição de outro. Temos, no trinômio Sol, Terra, Lua, os eclipses
lunares e solares. Quando a Lua está em um ponto do espaço oposto ao Sol, em
relação à Terra, ela está em oposição ou, simplesmente, no período da Lua
cheia, e aí poderemos ter um eclipse lunar. Por outro lado, quando a Lua está
em conjunção com o Sol, ou seja, na Lua nova, é possível que tenhamos os
eclipses solares. O fenômeno acontece por conta da obstrução da luz do Sol,
seja pela Terra ou pela Lua, e só se verifica quando eles se encontram
alinhados numa reta. Não é toda vez que acontece essa coincidência, pois nem
sempre os três astros se encontram nessa situação. Na verdade, a Lua gira num plano
que forma um ângulo de cinco graus com relação ao plano da órbita do nosso
planeta. Dessa forma, um alinhamento direto não é freqüente. Quando a órbita da
Lua atravessa o mesmo plano da órbita terrestre (em pontos chamados nodos), então
teremos um eclipse.
A quantidade máxima de eclipses que pode
acontecer durante um ano é de apenas sete. Como a região do nosso planeta em
que acontece o fenômeno pode variar de um eclipse para outro, não será toda vez
que teremos a sorte de ver tais espetáculos. Os eclipses lunares são mais
comuns de serem contemplados que os solares, pois todas as regiões do planeta
que estiverem observando a Lua cheia serão privilegiadas. Por sua vez, no
eclipse do Sol, total, apenas uma faixa de
Nossos ancestrais vislumbravam o céu com
curiosidade e temor. Com o passar dos milênios, o nômade caçador foi lentamente
aprendendo a lidar com a terra, e finalmente se tornou agricultor. Este momento
ficou conhecido como “revolução neolítica”, e aconteceu por volta de dez mil
anos atrás. Cada vez mais se tornou necessário obter conhecimentos acerca da
época certa para o plantio. Os sacerdotes elaboraram calendários para as
tarefas agrícolas e religiosas. Com o sedentarismo, surgiu o artesanato, e as
trocas se tornaram necessárias. Os primeiros observadores sistemáticos do céu
foram os marinheiros, os pastores e os agricultores. A Astronomia, como
ciência, surgiu na Babilônia e em Nínive, na região
hoje ocupada pelo Iraque. Eram os sacerdotes de tais Cidades-estados que
observavam os astros durante noites a fio a partir de torres chamadas Ziggurats. O resultado dessas observações era registrado em
plaquetas de argila, algumas datadas de 3.000 anos a.C, e elas revelaram que os
sacerdotes babilônicos eram capazes de prever os eclipses.
Havia uma
grande neurose coletiva com relação a esses fenômenos. Os povos antigos
acreditavam que os eclipses, juntamente com o surgimento dos cometas, eram
portadores de malefícios. A preocupação era tão grande que, com a proximidade
de um eclipse, o rei se tornava súdito e o seu lugar era ocupado por um pobre
coitado, que “reinava” durante esse breve período. Ao fim do fenômeno, o rei
retomava seu posto, “salvando-se” do chamado “mal do eclipse”. Os babilônios
afirmavam que o jovem deus-Lua, nessas ocasiões, era cercado pelos sete
demônios desencadeadores do mal. Marduk, o pai dos
deuses do panteão babilônico, intercedia e libertava-o com a ajuda do povo, que
entoava cantos fúnebres, e com as orações dos sacerdotes, que realizavam o
exorcismo o fenômeno.
Em
termos científicos, a grande contribuição da Astronomia babilônica foi a
descoberta de um período chamado saros, após vários séculos de observação sistemática do céu.
O saros é um período de 18 anos e 11 dias,
aproximadamente 223 meses lunares. Depois da seqüência, o Sol e a Lua retornam
quase exatamente às suas posições iniciais em relação aos nodos. Dessa forma, o
ciclo dos eclipses volta a repetir-se com grande aproximação. Cada saros possui 70
eclipses, mantendo uma média de 4 por ano, sendo 41 solares e 29 lunares. A importância
dos eclipses lunares está relacionada às primeiras deduções de ordem
científica, pois nos deram a primeira prova da redondeza da Terra. Os
cientistas utilizam essas oportunidades para realizar estudos da alta atmosfera
terrestre e para medições acerca da aceleração secular da Lua. Os resultados
são utilizados para estabelecer, com grande precisão, os registros das
efemérides.
O
eclipse penumbral ocorre quando a Lua atravessa
apenas o cone de penumbra da Terra. No parcial, a Lua penetra em um trecho do
mesmo, ao passo que no total ela mergulha completamente no cone de sombra.
Nesta situação, é possível presenciar as duas possibilidades anteriores. A
entrada na penumbra é bastante sutil e de difícil observação. O início da
parcialidade ocorre quando se verifica uma “mordida” na Lua, a partir do
contato do disco do satélite com o cone de sombra. A região escura vai
aumentando, até cobrir toda a superfície. A Lua não desaparece por completo,
pois a luz do Sol, desviada pela alta atmosfera terrestre, penetra no cone de
sombra e deixa a superfície lunar com uma coloração geralmente avermelhada,
podendo existir variações significativas.
O
primeiro cientista a estudar tal fato foi o astrônomo francês André Danjon (1890-1967), que elaborou uma escala de luminosidade
capaz de atribuir a cada eclipse um parâmetro de brilho a partir da fase de
totalidade. A escala de Danjon vai de
* Paulo Melo Sousa
é jornalista, escritor e presidente da SAMA
DADOS DO ECLIPSE
DIA HORA FENÔMENO
27.10 18:05 Nascer da Lua
27.10 21:06 Entrada na penumbra
27.10 22:14 Entrada na sombra
(início da fase parcial)
27.10 23:23 Início da totalidade
28.10 00:04 Meio do eclipse
28.10 00:45 Fim da totalidade
28.10 01:54 Saída da sombra (fim
da fase parcial)
28.10 03:03 Saída da fase de penumbra