A cósmica viagem de
Arthur C. Clarke
Paulo
Melo Sousa(*)
Faleceu em Colombo, capital do Sri Lanka,
no último dia 18 de março, vítima de complicações cardiorrespiratórias,
aos 90 anos de idade, o visionário escritor britânico de ficção científica,
Arthur C. Clarke, tendo sido enterrado naquele país
sem ritos religiosos no dia 22 de março. O escritor deixou expressa
recomendação escrita sobre o assunto: “absolutamente nenhum ritual religioso,
relacionado a qualquer fé religiosa, deve ser associado ao meu funeral”. O
governo do Sri Lanka solicitou à população que observasse um minuto de silêncio
em memória de Clarke às 15h30 locais, horário do
enterro. Ele nasceu em Minehead, Somerset,
na Inglaterra, no dia 16 de dezembro de 1917. Desde criança se interessou por
ciência, particularmente por astronomia, tendo desenhado na adolescência um mapa
lunar usando um telescópio caseiro. Estudou Física e Matemática no King’s College de Londres e,
durante a 2ª Guerra Mundial, serviu na Royal Air
Force, trabalhando num projeto secreto de desenvolvimento de radares. Na década
de 40 do século passado, Clarke começou a profetizar.
Afirmou que, antes do final do século XX o homem chegaria à lua. Tal declaração
foi considerada absurda por vários cientistas, na ocasião. Quando, em 1969,
Neil Armstrong pisou em solo lunar, o governo dos Estados Unidos reconheceu em Clarke um dos mais sólidos inspiradores da façanha.
Dentre as inúmeras contribuições do
escritor à ciência destaca-se a que se refere aos satélites geoestacionários,
descritos num de seus artigos científicos, publicado com a designação de “Can Rocket Stations
Give Worldwide Radio Coverage?” em 1945. Nesse trabalho, Clarke
afirmou corretamente que, com a colocação de apenas três satélites em órbita, o
mundo inteiro poderia se interligar através das telecomunicações. Os satélites geoestacionários, quando vistos da Terra, parecem se
encontrar parados no espaço. Na verdade, deslocam-se com a mesma velocidade
angular de um ponto situado sobre o nosso planeta, geralmente sobre a linha do
Equador. A altitude ideal para se colocar um satélite desse tipo em órbita é de
35.786km, posição em que as forças centrípetas e centrífugas se anulam. Esse
ponto também é conhecido como órbita de Clarke, em homenagem ao escritor britânico.
Em 1968, um conto de sua autoria, “A
Sentinela”, foi transformado em roteiro de filme pelo próprio Clarke e pelo cineasta Stanley Kubrick,
chegando às telas com o título de “2001: Uma Odisséia no Espaço”, com direção
de Kubrick. A obra se tornou um enorme sucesso de
bilheteria e o filme, um dos mais significativos do século XX, servindo de
inspiração a centenas de trabalhos que abordam a mesma temática, envolvendo futurísticas naves espaciais e supercomputadores. Em 1984,
com direção de Peter Hyams, outra obra de Clarke foi levada às telas: “2010: O Ano
Em 1971, no livro Marte e a Mente do Homem, organizado pela Universidade Tecnológica
da Califórnia a partir da iminente chegada da nave Mariner
9 ao Planeta Vermelho, Clarke
afirmou que “mesmo que agora não haja vida em Marte, haverá ao terminar este
século”. O homem ainda não pousou em nosso vizinho cósmico, mas os robôs que
atualmente realizam pesquisas na superfície marciana estão cada vez mais
encontrando vestígios de água, o que remete à possibilidade de ter havido vida
em Marte, no passado. Os testes com as naves espaciais estão pavimentando o
caminho de próximas missões tripuladas a esse planeta.
Nas suas obras, Arthur C. Clarke elaborou três condutas que deveriam nortear as
relações do homem com a tecnologia, e que receberam a denominação de Leis de Clarke. A primeira delas diz que “quando um cientista
distinto (renomado) e experiente (de mais idade) diz que algo é possível, ele
está quase inteiramente certo. Quando ele diz que algo é impossível, ele está
muito provavelmente errado”. A segunda lei afirma que “o único caminho para
desvendar os limites do possível é aventurar-se além dele, através do
impossível”. A terceira assertiva decreta que “qualquer tecnologia
suficientemente avançada é indistinguível da mágica”, o que dá margem a
inimagináveis elucubrações ficcionais e ao desenvolvimento da especulação
científica controlada. Clarke, na metade do século
passado, profetizou que “nos próximos 50 anos, milhares de pessoas vão fazer
viagens orbitando a Terra e, depois, até a Lua e além
dela. As viagens e o turismo espacial vão se tornar tão corriqueiros quanto as viagens a destinos exóticos em nosso próprio planeta”. A
nave SapaceShip Two, da Virgin Galactic, leva até 6 passageiros a bordo para passeios pelo
espaço e, uma semana após a morte de Clarke, uma
empresa aeroespacial lançou o Lynx, pequeno
avião-foguete que será capaz de levar um piloto e um passageiro para vôos suborbitais, consolidando assim o chamado turismo espacial.
Mais uma vez Arthur C. Clarke fez história,
utilizando de forma surpreendente a indomesticável força da imaginação.
(*) Paulo Melo
Sousa é poeta, jornalista, escritor, professor, ambientalista, pesquisador e
presidente da SAMA (Sociedade de Astronomia do Maranhão).
Editorial do suplemento JP Turismo, do Jornal Pequeno
(São Luís / MA - 04.04.2008)