Leonardo Boff
09/07/2007
Esteve
Paulo Melo
Sousa – A humanidade enfrenta uma
situação dramática. O planeta chegou ao limite da sua capacidade de regeneração
ambiental e, se não mudarmos o modo de produção capitalista e não for criada uma
nova consciência, os dias da aventura humana na Terra estarão contados. O que é
necessário fazer para que se enfrente esse desafio global?
Leonardo
Boff - Neste ano, precisamente no
dia 02 de fevereiro, foi constatado empiricamente que o planeta Terra já está
imerso no processo de aquecimento, o que significa que enfrentaremos uma época
de caos até que um novo equilíbrio seja encontrado e, num futuro bem próximo,
muitas distorções ambientais irão acontecer. Por um lado, grandes secas, por
outro lado enormes enchentes, degelo das calotas polares, aumento do nível das
águas do mar, dentre outros problemas. Dessa forma, como muitas espécies não
terão tempo suficiente para se adaptar às mudanças, acabarão desaparecendo, e
vastas regiões do planeta habitado ficarão inóspitas. Assim, milhões de pessoas
se tornarão refugiados ecológicos, ambientais, devido à frustração de
colheitas, o que irá gerar a fome global. Inúmeras populações deixarão seus
países e invadirão outros buscando a sobrevivência, pois não aceitarão o
veredicto da morte diante de tal situação. Esse é um cenário projetado para
daqui a poucos anos, o que sugere uma mudança de padrão do comportamento
humano, um novo software, uma nova equação moral diferente da que existe.
PMS - Isso corresponde a uma grande mudança, uma
verdadeira expansão de consciência coletiva da humanidade. Como se processaria
tal transformação?
LB - Primeiramente, o ser humano precisa preservar e cuidar
do que restou deste planeta; por outro lado, é necessário regenerar todas aquelas
partes que foram profundamente agredidas. Penso que inicialmente uma grande
atenção deve ser dada à questão da água potável que, possivelmente, será um dos
bens mais escassos da natureza nos próximos anos, pois somente 0.7% desse
recurso natural são acessíveis ao concurso humano. Um segundo impasse está
vinculado ao acelerado desflorestamento que vem acontecendo no mundo inteiro,
como já ocorreu no sudeste da Ásia, fenômeno que agora também está acontecendo em
vários países que integram a região amazônica, inclusive o Brasil, o que irá
provocar um desequilíbrio no sistema de climas, sobretudo no chamado sistema dos rios voadores, comprometendo
o nível de umidade da atmosfera, o que garante a formação de nuvens e o
equilíbrio entre o período das chuvas e das secas. Esses dois problemas nos
obrigam à adoção de uma ética básica do cuidado, mas tal procedimento não se
tornará efetivo se o ser humano não despertar previamente para uma profunda
sensibilidade, isto é, para uma ética do coração. Todos nós somos filhos da modernidade, que inflacionou a razão e
colocou sob suspeita todo sentimento, todo afeto, enfim. E nós sabemos que é
justamente nesse campo que nascem os valores da excelência da realização humana,
então, se nós não resgatarmos essa sensibilidade para com a Terra, para com os
ecossistemas, para com a vida, então será impossível o cuidado, que será então
apenas uma coisa imperativa, que não nasceria de dentro do ser humano. Dessa
forma, junto com a razão instrumental, analítica e científica que nós
precisamos para desenvolver projetos de satisfação das necessidades humanas,
precisamos também da razão sensível, da razão cordial, da razão do cuidado. E,
junto a isso, é preciso desenvolver a responsabilidade coletiva da humanidade,
pois se o problema é global, a responsabilidade também deve ser global.
PMS - Quais as particularidades dessa responsabilidade?
LB - Ser responsável é dar-se conta dos efeitos de nossas
ações. Existem ações que não podem mais ser realizadas, pois elas poderão ser
totalmente danosas para todo o sistema da vida, especialmente em relação a tudo
aquilo que se refere à biotecnologia, à nova medicina, à nanotecnologia. Nesse
caso, devemos trabalhar com o princípio da precaução, com o princípio do
cuidado, já que não conhecemos ainda as conseqüências dessas intervenções na
natureza, e daí deve nascer a responsabilidade
coletiva que a humanidade deve ter em tais situações para que não se incorra em
desastres sem retorno. Por fim, deve ser construída uma ética da colaboração,
pois todo o sistema mundial de comércio, de mercado, baseado na lógica da
economia é a competição, é a concorrência, e nada de cooperação. Então, se não
existir uma cooperação conjunta entre os cidadãos, o Estado, as empresas,
colocando-se como desafio permanente o salvamento da estrutura físico-química
que permite a existência da vida e o equilíbrio do planeta, nós iremos ao
encontro do pior. Então, os cenários são dramáticos e se tornarão mais
alarmantes caso os seres humanos já agora não fizermos profundas inversões
monetárias em busca do equilíbrio do clima. Até agora o discurso ecológico
ficava no âmbito dos ambientalistas, dos humanistas, das pessoas ligadas à
natureza. Hoje, ele chegou às empresas, e os empresários estão finalmente se
alarmando, pois desta vez se dão conta de que não existe
uma Arca de Noé que venha salvar alguns, deixando
perecer tantos outros. Todos poderemos perecer diante
desse novo quadro ambiental.
PMS - O senhor acredita na possibilidade de um envolvimento
real das empresas em relação à solução do problema?
LB - Está existindo uma movimentação saudável no mundo
inteiro, advinda das grandes multinacionais no sentido da revisão de suas
posições e do que podem fazer, quantificando quantos investimentos podem ser
alocados para a solução de problemas ambientais. O que está se pedindo é que
haja um investimento de pelo menos 2% do PIB
– Produto Interno Bruto mundial, o que equivale a quase 1
trilhão de dólares ao ano, recurso sem o qual nós não iremos estabilizar o
clima do planeta. Se nós chegarmos aos anos 30 ou 40 deste século com a atual
prática ambiental, aí não haverá mais retorno, surgirá
então a era da tribulação, da desolação, onde milhões de pessoas poderão
desaparecer junto com imensas faixas de biodiversidade, afetando profundamente
a biosfera. Então, o quadro é dramático, exige uma nova consciência e isso
lentamente vem sendo incentivado por instituições governamentais ou
não-governamentais, e eu acho que esse é um bom sinal em resposta à divulgação
dos dados empíricos relativos ao aquecimento global.
PMS - As suas declarações apontam diretamente para a
importância da formação de uma consciência crítica tendo como base de
sustentação a visão sistêmica da
questão ambiental, advinda, dentre outras vertentes, do pensamento holístico e das
proposições de James Lovelock com a Hipótese de Gaia e de outros pensadores, tais como Fritjof
Capra, Deepak Chopra e Amit Goswami.
São visões idealistas, diríamos assim. Como convencer os detentores do capital,
os governantes e grande parte da população mundial que não tem acesso à
informação da necessidade de uma modificação radical do atual modelo econômico,
inclusive em relação à falsa idéia redentora do desenvolvimento sustentável, já que não existe possibilidade de sustentabilidade
a partir do modo de produção da sociedade capitalista atual?
LB - Entendo que está existindo um grande equívoco na
discussão mundial dominante, baseada na busca de alternativas energéticas para
a solução desse problema global. Na verdade, tal solução não seria alcançada,
pois aí só se procuraria encontrar outros tipos de energia para garantir a
manutenção do funcionamento da máquina mundial, onde existe um sistema de
produção altamente agressivo, que estimula, por exemplo, o aumento da frota de
automóveis e da poluição daí oriunda, dentre outros problemas. É insuficiente apenas buscar alternativas à
atual matriz energética, o que é imprescindível é que se busque uma alternativa
sistêmica, uma alternativa ao atual padrão civilizatório.
Nós não podemos mais produzir como produzimos até aqui, a Terra já não agüenta
essa pressão. São quase quatro séculos de sistemática e ilimitada
exploração dos recursos naturais do planeta, que está demonstrando através do
desequilíbrio ambiental um enorme stress,
uma saturação. A Terra possui um complexo sistema auto-regulador e está
revelando que não está mais conseguindo se auto-regular, daí o aumento dos
vendavais, das secas, do aumento das erupções dos vulcões, enfim, das mudanças
climáticas. São indicações de que a Terra não está mais conseguindo auto-regular-se, necessitando, portanto, da intervenção
humana.
PMS - Uma intervenção com consciência crítica e
ampliada...
LB - Sim, então, ou nós mudamos o nosso modelo civilizatório, com um desenvolvimento em harmonia com os
recursos de cada ecossistema ou a vida se tornará inviável para a humanidade; a
intervenção restauradora deve permitir que todas as regiões, com seus
ecossistemas, ofereçam um padrão que permita a sobrevivência não só das
pessoas, o que seria uma visão antropocêntrica, mas de todas as espécies de
vida que são nossos companheiros de viagem neste planeta. Isso deve permitir
que a Terra faça o que sempre fez, ou seja, manter as condições físico-químicas
benfazejas a todas as formas de vida, sem precisar eliminá-las. Essa é questão
mais difícil, pois exige uma verdadeira revolução, de cunho espiritual, que
leva a um novo sentido de ser, não mais para produzir para acumular, enriquecer
e desfrutar, mas sim produzir para atender às demandas humanas, numa economia
do suficiente, do decente para todos, especialmente respeitando os ciclos da
natureza, já que a Terra mostrou no passado que pode ser uma grande mãe
generosa, mas também pode se tornar uma madrasta terrível para aqueles seres
que sistematicamente violam suas leis. Estes terminam sendo expelidos,
eliminados pela Terra. Todas as mudanças que estão ocorrendo neste momento têm
como causa principal a intervenção humana; o homem é a espécie que está
ameaçando o sistema global da vida no planeta, e é natural que a Terra queira
se libertar dessa espécie para continuar na sua trajetória. Então, essa questão
exige um debate sério que implica num novo padrão civilizatório
no qual teremos que ter menos para ser mais, consumir menos para ser mais feliz.
PMS - Numa proposição global, é claro...
LB - Sim, como o mundo está globalizado, não dá mais para
que uma só região faça a sua revolução particular, é preciso que essa mudança
aconteça de forma unificada, pois o planeta inteiro, o universo inteiro está
interligado. Existe uma frase de Hegel que diz que “o ser humano aprende da História
que não aprende nada da História”, mas aprende tudo com o sofrimento. Então,
quando a crise chegar à nossa pele, as grandes empresas chegarem à conclusão de
que não poderão mais produzir, a sua acumulação, aí sim mudarão, ou então
morrerão. Creio que não chegamos ainda ao coração da crise, mas acredito que
antes dos anos 30 deste século ela chegará com uma força espantosa. Existe um
dado, que é um dado da lógica da evolução, que advém da Teoria do Caos, que diz
que a Terra poderá entrar rapidamente numa situação de caos. Nesse estado a
situação é desastrosa, pois as leis conhecidas aí não funcionam mais, nem as
leis quânticas, nem as da imponderabilidade. Nesse contexto de total
desequilíbrio, é possível que surjam, por exemplo, bactérias ou vírus altamente
resistentes que poderão atacar a espécie humana e, em questões de semanas,
eliminarem milhões de pessoas por ausência de imunidade. Então, essa situação
de caos pode surgir a qualquer momento, e a Terra já vem dando há tempos vários
sinais de que está entrando nesse estágio. Então, penso que essa informação
deveria levar os Estados, que têm uma visão estratégica em relação ao futuro
dos seus povos, a preparar-se para o pior.
PMS - Diante desse panorama tenebroso para a espécie
humana, qual é o seu pensamento a respeito desse cenário? Nós conseguiremos
resolver a equação ambiental ou mergulharemos definitivamente nesse caos
apocalíptico?
LB - Eu penso que existem duas possibilidades. Poderíamos
entender a atual situação como uma tragédia cujo desfecho será funesto. Outra
visão nos leva à idéia de que estamos atravessando uma grave crise. A crise
acrisola, purifica, é como uma doença que nos obriga a ir a um hospital. Aí se
emagrece e o ritmo de vida é modificado, surge uma nova experiência para o ser
e a salvação, a cura. Eu sou otimista, acho que a Terra já passou por muitas
crises anteriormente, e a vida nunca sucumbiu. Desde que o ser humano surgiu
sobre este planeta também já pagou preços muito altos para continuar existindo,
depois de enfrentar pestes, fome e guerras. Não é impossível que, mesmo que
grande parte da humanidade seja afetada, ela venha sobreviver ao caos,
refazendo, depois disso, o caminho da sua história, já com uma outra
consciência em virtude da lição que terá aprendido, então, da indispensável
convivência equilibradamente ecológica com a natureza. Se o homem conviver em
harmonia com a natureza, as condições essenciais para uma existência saudável,
propícia à evolução, carregada de sentido, será finalmente possível.
(*) Paulo Melo Sousa –
Jornalista, escritor, professor, ambientalista e astrônomo amador.