Leonardo Boff

 

09/07/2007

 

Esteve em São Luís, na última segunda-feira, o célebre teólogo, professor, ambientalista e escritor Leonardo Boff, criador da Teoria da Libertação, idéia que o tornou mundialmente conhecido. Na ocasião, proferiu conferência de abertura no I Simpósio Internacional sobre Ambiente Global, promoção do governo do Estado do Maranhão, abordando o tema Ética e Meio Ambiente. Antes do início da palestra, numa Sala Vip do Centro de Convenções, Leonardo Boff, de forma descontraída, teceu sérios e proféticos comentários acerca do futuro ambiental do planeta, costurando a idéia de que é necessário entender que uma nova Ética Global seja assimilada pela humanidade, vindo a funcionar como o elemento fundador de uma nova e necessária mudança de paradigma da civilização, através da qual se encontrará uma saída para a sinuca de bico ambiental na qual se encontra o planeta Terra. Leonardo Boff, com humildade, simplicidade e disponibilidade conversou conosco de forma exclusiva e nos deu a honra de socializar com o leitor o depoimento abaixo transcrito.

 

Paulo Melo Sousa – A humanidade enfrenta uma situação dramática. O planeta chegou ao limite da sua capacidade de regeneração ambiental e, se não mudarmos o modo de produção capitalista e não for criada uma nova consciência, os dias da aventura humana na Terra estarão contados. O que é necessário fazer para que se enfrente esse desafio global?

Leonardo Boff - Neste ano, precisamente no dia 02 de fevereiro, foi constatado empiricamente que o planeta Terra já está imerso no processo de aquecimento, o que significa que enfrentaremos uma época de caos até que um novo equilíbrio seja encontrado e, num futuro bem próximo, muitas distorções ambientais irão acontecer. Por um lado, grandes secas, por outro lado enormes enchentes, degelo das calotas polares, aumento do nível das águas do mar, dentre outros problemas. Dessa forma, como muitas espécies não terão tempo suficiente para se adaptar às mudanças, acabarão desaparecendo, e vastas regiões do planeta habitado ficarão inóspitas. Assim, milhões de pessoas se tornarão refugiados ecológicos, ambientais, devido à frustração de colheitas, o que irá gerar a fome global. Inúmeras populações deixarão seus países e invadirão outros buscando a sobrevivência, pois não aceitarão o veredicto da morte diante de tal situação. Esse é um cenário projetado para daqui a poucos anos, o que sugere uma mudança de padrão do comportamento humano, um novo software, uma nova equação moral diferente da que existe.

 

PMS - Isso corresponde a uma grande mudança, uma verdadeira expansão de consciência coletiva da humanidade. Como se processaria tal transformação?

LB - Primeiramente, o ser humano precisa preservar e cuidar do que restou deste planeta; por outro lado, é necessário regenerar todas aquelas partes que foram profundamente agredidas. Penso que inicialmente uma grande atenção deve ser dada à questão da água potável que, possivelmente, será um dos bens mais escassos da natureza nos próximos anos, pois somente 0.7% desse recurso natural são acessíveis ao concurso humano. Um segundo impasse está vinculado ao acelerado desflorestamento que vem acontecendo no mundo inteiro, como já ocorreu no sudeste da Ásia, fenômeno que agora também está acontecendo em vários países que integram a região amazônica, inclusive o Brasil, o que irá provocar um desequilíbrio no sistema de climas, sobretudo no chamado sistema dos rios voadores, comprometendo o nível de umidade da atmosfera, o que garante a formação de nuvens e o equilíbrio entre o período das chuvas e das secas. Esses dois problemas nos obrigam à adoção de uma ética básica do cuidado, mas tal procedimento não se tornará efetivo se o ser humano não despertar previamente para uma profunda sensibilidade, isto é, para uma ética do coração. Todos nós somos filhos da modernidade, que inflacionou a razão e colocou sob suspeita todo sentimento, todo afeto, enfim. E nós sabemos que é justamente nesse campo que nascem os valores da excelência da realização humana, então, se nós não resgatarmos essa sensibilidade para com a Terra, para com os ecossistemas, para com a vida, então será impossível o cuidado, que será então apenas uma coisa imperativa, que não nasceria de dentro do ser humano. Dessa forma, junto com a razão instrumental, analítica e científica que nós precisamos para desenvolver projetos de satisfação das necessidades humanas, precisamos também da razão sensível, da razão cordial, da razão do cuidado. E, junto a isso, é preciso desenvolver a responsabilidade coletiva da humanidade, pois se o problema é global, a responsabilidade também deve ser global.

 

PMS - Quais as particularidades dessa responsabilidade?

LB - Ser responsável é dar-se conta dos efeitos de nossas ações. Existem ações que não podem mais ser realizadas, pois elas poderão ser totalmente danosas para todo o sistema da vida, especialmente em relação a tudo aquilo que se refere à biotecnologia, à nova medicina, à nanotecnologia. Nesse caso, devemos trabalhar com o princípio da precaução, com o princípio do cuidado, já que não conhecemos ainda as conseqüências dessas intervenções na natureza, e daí deve nascer a responsabilidade coletiva que a humanidade deve ter em tais situações para que não se incorra em desastres sem retorno. Por fim, deve ser construída uma ética da colaboração, pois todo o sistema mundial de comércio, de mercado, baseado na lógica da economia é a competição, é a concorrência, e nada de cooperação. Então, se não existir uma cooperação conjunta entre os cidadãos, o Estado, as empresas, colocando-se como desafio permanente o salvamento da estrutura físico-química que permite a existência da vida e o equilíbrio do planeta, nós iremos ao encontro do pior. Então, os cenários são dramáticos e se tornarão mais alarmantes caso os seres humanos já agora não fizermos profundas inversões monetárias em busca do equilíbrio do clima. Até agora o discurso ecológico ficava no âmbito dos ambientalistas, dos humanistas, das pessoas ligadas à natureza. Hoje, ele chegou às empresas, e os empresários estão finalmente se alarmando, pois desta vez se dão conta de que não existe uma Arca de Noé que venha salvar alguns, deixando perecer tantos outros. Todos poderemos perecer diante desse novo quadro ambiental.

 

PMS - O senhor acredita na possibilidade de um envolvimento real das empresas em relação à solução do problema?

LB - Está existindo uma movimentação saudável no mundo inteiro, advinda das grandes multinacionais no sentido da revisão de suas posições e do que podem fazer, quantificando quantos investimentos podem ser alocados para a solução de problemas ambientais. O que está se pedindo é que haja um investimento de pelo menos 2% do PIB – Produto Interno Bruto mundial, o que equivale a quase 1 trilhão de dólares ao ano, recurso sem o qual nós não iremos estabilizar o clima do planeta. Se nós chegarmos aos anos 30 ou 40 deste século com a atual prática ambiental, aí não haverá mais retorno, surgirá então a era da tribulação, da desolação, onde milhões de pessoas poderão desaparecer junto com imensas faixas de biodiversidade, afetando profundamente a biosfera. Então, o quadro é dramático, exige uma nova consciência e isso lentamente vem sendo incentivado por instituições governamentais ou não-governamentais, e eu acho que esse é um bom sinal em resposta à divulgação dos dados empíricos relativos ao aquecimento global.

 

PMS - As suas declarações apontam diretamente para a importância da formação de uma consciência crítica tendo como base de sustentação a visão sistêmica da questão ambiental, advinda, dentre outras vertentes, do pensamento holístico e das proposições de James Lovelock com a Hipótese de Gaia e de outros pensadores, tais como Fritjof Capra, Deepak Chopra e Amit Goswami. São visões idealistas, diríamos assim. Como convencer os detentores do capital, os governantes e grande parte da população mundial que não tem acesso à informação da necessidade de uma modificação radical do atual modelo econômico, inclusive em relação à falsa idéia redentora do desenvolvimento sustentável, já que não existe possibilidade de sustentabilidade a partir do modo de produção da sociedade capitalista atual?

LB - Entendo que está existindo um grande equívoco na discussão mundial dominante, baseada na busca de alternativas energéticas para a solução desse problema global. Na verdade, tal solução não seria alcançada, pois aí só se procuraria encontrar outros tipos de energia para garantir a manutenção do funcionamento da máquina mundial, onde existe um sistema de produção altamente agressivo, que estimula, por exemplo, o aumento da frota de automóveis e da poluição daí oriunda, dentre outros problemas. É insuficiente apenas buscar alternativas à atual matriz energética, o que é imprescindível é que se busque uma alternativa sistêmica, uma alternativa ao atual padrão civilizatório. Nós não podemos mais produzir como produzimos até aqui, a Terra já não agüenta essa pressão. São quase quatro séculos de sistemática e ilimitada exploração dos recursos naturais do planeta, que está demonstrando através do desequilíbrio ambiental um enorme stress, uma saturação. A Terra possui um complexo sistema auto-regulador e está revelando que não está mais conseguindo se auto-regular, daí o aumento dos vendavais, das secas, do aumento das erupções dos vulcões, enfim, das mudanças climáticas. São indicações de que a Terra não está mais conseguindo auto-regular-se, necessitando, portanto, da intervenção humana.

 

PMS - Uma intervenção com consciência crítica e ampliada...

LB - Sim, então, ou nós mudamos o nosso modelo civilizatório, com um desenvolvimento em harmonia com os recursos de cada ecossistema ou a vida se tornará inviável para a humanidade; a intervenção restauradora deve permitir que todas as regiões, com seus ecossistemas, ofereçam um padrão que permita a sobrevivência não só das pessoas, o que seria uma visão antropocêntrica, mas de todas as espécies de vida que são nossos companheiros de viagem neste planeta. Isso deve permitir que a Terra faça o que sempre fez, ou seja, manter as condições físico-químicas benfazejas a todas as formas de vida, sem precisar eliminá-las. Essa é questão mais difícil, pois exige uma verdadeira revolução, de cunho espiritual, que leva a um novo sentido de ser, não mais para produzir para acumular, enriquecer e desfrutar, mas sim produzir para atender às demandas humanas, numa economia do suficiente, do decente para todos, especialmente respeitando os ciclos da natureza, já que a Terra mostrou no passado que pode ser uma grande mãe generosa, mas também pode se tornar uma madrasta terrível para aqueles seres que sistematicamente violam suas leis. Estes terminam sendo expelidos, eliminados pela Terra. Todas as mudanças que estão ocorrendo neste momento têm como causa principal a intervenção humana; o homem é a espécie que está ameaçando o sistema global da vida no planeta, e é natural que a Terra queira se libertar dessa espécie para continuar na sua trajetória. Então, essa questão exige um debate sério que implica num novo padrão civilizatório no qual teremos que ter menos para ser mais, consumir menos para ser mais feliz.

 

PMS - Numa proposição global, é claro...

LB - Sim, como o mundo está globalizado, não dá mais para que uma só região faça a sua revolução particular, é preciso que essa mudança aconteça de forma unificada, pois o planeta inteiro, o universo inteiro está interligado. Existe uma frase de Hegel que diz que “o ser humano aprende da História que não aprende nada da História”, mas aprende tudo com o sofrimento. Então, quando a crise chegar à nossa pele, as grandes empresas chegarem à conclusão de que não poderão mais produzir, a sua acumulação, aí sim mudarão, ou então morrerão. Creio que não chegamos ainda ao coração da crise, mas acredito que antes dos anos 30 deste século ela chegará com uma força espantosa. Existe um dado, que é um dado da lógica da evolução, que advém da Teoria do Caos, que diz que a Terra poderá entrar rapidamente numa situação de caos. Nesse estado a situação é desastrosa, pois as leis conhecidas aí não funcionam mais, nem as leis quânticas, nem as da imponderabilidade. Nesse contexto de total desequilíbrio, é possível que surjam, por exemplo, bactérias ou vírus altamente resistentes que poderão atacar a espécie humana e, em questões de semanas, eliminarem milhões de pessoas por ausência de imunidade. Então, essa situação de caos pode surgir a qualquer momento, e a Terra já vem dando há tempos vários sinais de que está entrando nesse estágio. Então, penso que essa informação deveria levar os Estados, que têm uma visão estratégica em relação ao futuro dos seus povos, a preparar-se para o pior.

 

PMS - Diante desse panorama tenebroso para a espécie humana, qual é o seu pensamento a respeito desse cenário? Nós conseguiremos resolver a equação ambiental ou mergulharemos definitivamente nesse caos apocalíptico?

LB - Eu penso que existem duas possibilidades. Poderíamos entender a atual situação como uma tragédia cujo desfecho será funesto. Outra visão nos leva à idéia de que estamos atravessando uma grave crise. A crise acrisola, purifica, é como uma doença que nos obriga a ir a um hospital. Aí se emagrece e o ritmo de vida é modificado, surge uma nova experiência para o ser e a salvação, a cura. Eu sou otimista, acho que a Terra já passou por muitas crises anteriormente, e a vida nunca sucumbiu. Desde que o ser humano surgiu sobre este planeta também já pagou preços muito altos para continuar existindo, depois de enfrentar pestes, fome e guerras. Não é impossível que, mesmo que grande parte da humanidade seja afetada, ela venha sobreviver ao caos, refazendo, depois disso, o caminho da sua história, já com uma outra consciência em virtude da lição que terá aprendido, então, da indispensável convivência equilibradamente ecológica com a natureza. Se o homem conviver em harmonia com a natureza, as condições essenciais para uma existência saudável, propícia à evolução, carregada de sentido, será finalmente possível.

 

 

 

(*) Paulo Melo Sousa – Jornalista, escritor, professor, ambientalista e astrônomo amador.